sábado, 7 de junho de 2014

7 junho 2014

Querido R,

Passou exactamente 1 ano, 1 mês e 2 semanas. Números, só e apenas isso. A dor continua presente tal como há 1 ano, 1 mês e 2 semanas atrás. Talvez seja ainda mais profunda e só agora eu me esteja a aproximar da realidade. Talvez eu comece a perceber que não, não te vou voltar a ver passados uns tempos. Não vou mais passar por aquela estrada e ver-te fazer adeus da varanda, ao buzinarmos o carro. Não te vou voltar a ver. Custa a acreditar e caem-me lágrimas ao pensar nisso.
Já consigo falar de certos episódios teus a outras pessoas, consigo até sentir-me bem ao falar de alguns. Mas não consigo proferir o teu nome, a ninguém. Guardo-o de forma tal, que não quero que o saibam. Guardo-o junto à dor que não quero que vejam. Guardo-o aqui, onde te guardo a ti. Recuso-me a deixar-te ir! Não consigo fazê-lo, muito menos da forma como tu-sabes-quem. Não consigo. A minha vida continua, sim. Não foi o fim do mundo, mas morreu algo em mim. Morreste tu e fazias parte de mim, portanto, morreu algo em mim - e dói. É uma dor dilacerante, como que uma cirurgia ao coração sem anestesia, ou a qualquer outra parte do corpo, mas dói-me especialmente esse músculo. Sim, eu sei que ele não tem nada a ver com isto, sabes? Aprendi coisas novas neste ano que passou diante de mim, sem o veres. Aprendi a ser mais realista e, no entanto, a manter certas coisas surreais. Eu sei que o coração não tem nada a ver com as emoções, mas sei que a dor emocional é tão grande como a física (as áreas cerebrais activas em ambas as situações são as mesmas) e sei que associam - erroneamente -, o coração a este tipo de dor que sinto. Portanto uso esta metáfora e digo-te... Estou a rasgar do peito toda esta emoção para ta descrever.
Escrevi-te. Escrevi-te muito, mas não deixei nada aqui. Não me perguntes o porquê, mas parece que o tempo me corre por entre os dedos e não sei como agarrá-lo. Unindo o tempo que me foge e os desgostos que me cumprimentam sempre, não tenho querido cá vir. Não por ti, porque te escrevo, te penso e te quero cá. Mas pelo que isto significa - que é o único sítio onde te tenho. Só quero que saibas que eu te estou...

Sempre relembrando,
J.

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